segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Ad sumus 2



Então, formou. Agora eu fiquei mais à vontade. Tudo que duas pessoas precisam para caminharem juntas são respeito e confiança. Já sabemos dos nossos interesses e das nossas limitações. Já falamos das nossas recíprocas admirações. Você já sabe que nunca vou lhe cobrar nada, tampouco lhe oferecer senão idéias e sugestões.  

Quando você esteve lá deixou claro certo desejo em me ajudar. E toda vez que me comunico com você isso se reforça.

Adiante você vai ler muitas coisas que você já sabe. Muitos dos meus enganos. Mas também lerá algumas novidades que podem lhe enriquecer. Não me leia como um presunçoso. Não tenho mesmo essa intenção. Quero ser um colaborador no futuro e reforço: jamais vou lhe cobrar, até por que você já fez mais pra mim do que fiz por merecer.

A seleção natural pode ter errado com os patos, como errou no caroço do abacate. Porém devemos reconhecer que com as patas, com as asas e com o bico que Deus lhes deu, até que a performance deles não é tão ruim. Até por que eles sobrevivem. Agora se nós pudermos ajudá-los mantendo-os distantes dos crocodilos, com certeza, eles ainda vão viver por muito mais tempo e mais felizes. Assim como fizemos do buraco do caroço do abate um bom lugar para colocarmos o indispensável açúcar.

Sempre procurei ser especializado. Comecei com reciclagem em 1973 e só fazia reciclagem de fios de nylon (poliamida) que eram gerados pela empresa De Millus – Bairro da Penha -RJ. Depois de alguns anos a De Millus deixou de gerar esse tipo de resíduo. Antes ela fabricava o nylon, o fio, o tecido e fechava a roupa; hoje ela compra o tecido pronto e só fecha.

Anos depois eu só desmontava máquinas copiadoras desativadas da Xerox The Document Company. Desmontei pra mais de 120 mil. Reciclava tudo. Eu desmontava a máquina parcialmente, comprava os plásticos, reciclava-os plásticos e vendia para fabricação de caixas para telecomunicações. Isso quando quem fazia a gestão era a Fundação Ayrton Senna, através da Viviane Senna pela Fábrica de Esperança em Acari. A renda ia para as crianças de Acari. De repente mudaram tudo. A Fábrica de Esperança acabou, virou um condomínio e eu fiquei de fora.

Depois desmontei CD. Trabalhei 8 anos com a Sony Music Brasil Entertainment. Antes era CBS. Reciclava vinil, depois K7, depois CD. Descaracterizei e reciclei mais de 100 milhões de CDs. Desmontei milhões de fitinhas K7. Tirava os parafusinhos, o miolo, enrolava a fita para vender para enchimento de bonecos de pano e reciclava os plásticos. Trabalho de maluco. Necessário. A Sony foi pra Manaus. Eu não quis ir. De perto de lá vieram meus antepassados. Meus avôs foram índios do Acre – Xapuri. Lá é bom, mas para criar filhos pra esse mundo não é bom.

Há dez anos desmancho tubos umbilicais. Tenho três funcionários dentro da fábrica desses tubos em Niterói. Eles desmancham o tubo que é composto, em média, de 7 matérias primas diferentes entre plásticos e metais.  As partes que interessam à empresa eu devolvo para ela e as que sobram eu compro. Ela não paga nada. Esse serviço está prestes a acabar. Tenho um concorrente, aliado de um Senador, lá do Espírito Santo, que está dominando esse mercado. Deve ser lavagem de dinheiro político ou roubo de balança. Ele consegue pagar mais caro do que vale. Até agora eu estou agüentando porque tenho uma aliada lá dentro que é uma pessoa seriíssima; mas grana tem limites e ela pode acabar perdendo o comando.

Trabalho também para uma empresa chamada Lillo. Até ano passado era Novartis Biociências. Depois virou Nestle. Logo depois Virou Gerber Alimentos Infantis. Agora é só Lillo. Fabricam a linha de produtos para alimentação infantil marca Lillo. A marca sempre foi Lillo, a controladora é que mudou três vezes nesses últimos 6 meses. Eles fabricam mamadeiras e chupetas prioritariamente. Depois que esses produtos estão prontos e passam pelo último controle de qualidade são inspecionadas as gravações decorativas, rachaduras, manchas e a resistência do bico da chupeta. Quando reprovados eram moídos tudo junto e depois eram entregues para uma empresa para incinerar. Agora eu tenho um funcionário lá dentro que pega o produto, desmonta, mói tudo separado e compramos tudo separado e moído. Mamadeiras são fabricadas com policarbonato e os bicos em látex. Esse policarbonato eu uso para misturar com o da caixa. O da caixa não é muito bom por que já pegou muito sol. Mas o da mamadeira jamais saiu da fábrica.   

As caixas plásticas começaram há uns 8 anos. Sempre as comprei em “Alcantara”. Só em 2006 comecei a comprar direto. O que eu comprar de caixa eu reciclo e vendo para os mais diversos segmentos industriais. Não tenho problemas para vender. Quero vender para caixas de medidores por que foi lá aonde elas nasceram.

Toda maneira de reciclar vale à pena. Assim como toda forma de amar e toda forma de viver vale à pena. Mas como é melhor amar com paixão e é melhor viver com alegria, é melhor reciclar com razão e reciclar com razão é você reviver o que se foi. Falei no meu segundo relatório de empresas que fazem mourões de cerca de plástico. Bancos de praça em plástico. Existem milhares de exemplos de coisas que passaram a ser de plástico, quando eram de madeira, papel e papelão; que são renováveis e inofensivos quando depositados no solo. Mas é que o plástico contaminado é mais barato do que aqueles materiais e como para descontaminar envolve custo com mão de obra, muitas vezes deficitária, então é melhor misturar tudo, fazer uma massa e fabricar tijolo, argamassa, asfalto, produzir energia térmica...  

As nossas caixas plásticas podem ser moídas com metal e ferro tudo junto. Depois separados os metais dos plásticos na água salinizada. O metal do ferro separa no imã, e pronto. Mas esse processo estraga 100% das peças metálicas que deverão ser fabricadas novamente para novas caixas: fundidas, extrudadas e torneadas (recursos naturais + emissões de CO2). As águas de separação serão contaminadas com sais e deverão ser tratadas ao serem descartadas. O emprego de mão de obra será reduzido em 90%. O equipamento para fazer isso vai custar 150 mil reais. Com 150 mil reais somados à remuneração de 1% ao mês, 1,5 mil reais a mais, você mantém 5 empregos de salário de 650 reais mais encargos, por cerca de 180 meses, 15 anos, sem considerar o consumo de energia elétrica do equipamento, da água e sem considerar a manutenção do equipamento. 

Então o que é lógico? Criarmos uma caixa que possa voltar a ser caixa depois que sua vida acabar. Como? Fazendo pressão. Precisamos de engenheiros mecânicos, elétricos, químicos no meio ambiente. Precisamos de mais profissionais comprometidos com a empresa e menos preocupados com seus empregos. Não falo da sua Cia., é claro, falo de todo mundo. Precisamos da inclusão industrial do reciclador como ator também no projeto de produtos.

Então se a estória do pato serve para dizer que não é possível acumular múltiplas performances, é verdade. Mas a performance que idealizo é una, embora seja plural. Ela não está no produto, nem na matéria; menos ainda no objeto. Ela está no conceito. No discurso de enquanto algo for bom e verdadeiro que sobreviva, mesmo que não seja pleno, mas suficiente e maior do que o nada. E o nada será o que teremos se criarmos produtos supérfluos para aliviar nossas consciências dos estragos que causam nossa mesquinhez.

O que estou querendo fazer é deixar postes continuarem sendo postes, transformadores continuarem transformadores e isoladores, isoladores. Terceirizando essa recuperação. Fazendo a gestão de coleta e logística na Cia., administrando os serviços e vendendo os recuperados. Claro que isso não é possível fazer de uma vez com todos os resíduos de todo o Estado. Mas talvez possa ser feito em uma área restrita. Talvez na Região Norte Fluminense. Talvez em uma região definida no Ceará.

Com certeza isso já é feito. Mas precisa ser feito e documentado, a exemplo das caixas plásticas. Quero fazer documentado por que quero dizer: esses milhares de postes estão aqui, ali e acolá. Idem para os outros produtos. Quero fotografá-los. Quero documentar por que as informações dessa pós-vida ajudarão no desenvolvimento de novos produtos. Não haverá no futuro produto que não possa ser 100% reciclado. Falo de 50 anos. Falo de 2059. Falo de uma data onde as emissões atmosféricas nocivas deverão estar reduzidas em 80% das de 1999.

Como financiar isso? Será isso economicamente sustentável?  As caixas não são. As caixas não dão lucro. Não dão prejuízo, mas não dão lucro. E ainda tive que aumentar a minha cotação de preço para as próximas compras. Por quê? Fui ameaçado em “Alcantara”. Disse-me que colocaria 1 real na cotação, e me venderia por 0,50 de real se eu não entrasse na concorrência. Vai entender? Não use essa informação. Eu não provo. Depois tentou se corrigir dizendo que não faria isso. Depois da concorrência me ligou. Perguntou quanto eu coloquei. Eu disse, pois a concorrência já havia encerrado. Depois pediram novos envelopes, mas aí nem sei se mudou alguma coisa ou não. Nem se incomode com isso, por favor. Vai só estressar e depois já acertamos que isso não é de sua conta. Depois, de nada adianta, do outro lado da Ponte tem um consócio controlado por bicheiro usando outras empresas pra controlar o negócio. Você se quiser mudar essa situação só tem um jeito: profissionalizar o negócio. O gerador tem que saber também da sua culpa. Sucata não pode ser um cadáver cujo gerador ou gestor queira se livrar a todo custo. Sucata é um ativo de marketing para a imagem da empresa para o seu cliente, para o Estado e os agentes financeiros nacionais e internacionais. É um patrimônio que poderá ser exportado em créditos de bens ambientais para países que não possuem a nossa riqueza criativa nem braçal para solucionar essa questão com o carinho que ela requer.

Se você olhar a minuta de contrato que acompanha a cotação vai se espantar dos vícios. 1. Propõe um contrato de exclusividade. Isso não faz sentido quando não haverá por parte do comprador investimento específico; 2. Propõe um prazo de 3 anos, quando o comprador tem que ser licenciado e nesse intervalo a licença pode vencer e não ser renovada; 3. Propõe que o comprador defina como e onde serão pesadas as mercadorias, dando à raposa a chave do galinheiro; 4. Impõe onde o comprador não poderá vender a mercadoria adquirida, restringindo um direito individual e fazendo presunção de culpa. Parece que se pegou uma coisa antiga, cheia de vícios, do tempo do Estado, e se modificou baseado nos erros do antigo comprador sem um olhar para dentro de si.

Os cabos elétricos financiam isso. Você sabe disso. Na verdade esses cabos elétricos são a isca que o Comercial usa para sepultar o resto. É Preciso otimizar esse financiamento. Ao invés de financiar para se livrar dos problemas, passará a financiar a transformação desses problemas em valores tanto quanto os cabos são. Como as caixas podem passar a ser um valor maior, se a Engenharia da Cia. aprovasse o uso de 10% dos reciclados das caixas nas novas caixas. Poderíamos então vender: “a Cia. dará preferência na compra, ou homologação, para empresas fabricantes de caixas que agregarem nas suas caixas 10% do material reciclado de nossas próprias caixas”. O reciclador poderia pagar e vender melhor os materiais das caixas. Alguém está perdendo? A Eletrobras tinha um laboratório para fazer esses testes. A ANEL tem. Acho que ela é que dita as Normas. Na verdade todas as fábricas de caixas utilizam plásticos reciclados. O que estou propondo só traz inovação na redução no cinismo.

Então se a caixa não dá lucro, por que eu faço? Porque acredito que seja o início de uma coisa maior. Porque acredito na Engenharia do Reverso. Acredito que junto com a Revolução Ambiental virá uma Revolução “Desindustrial”, que será a herança que pretendo deixar.

Por favor, não me veja como um presunçoso. Sou um pequeno empresário e talvez um médio sonhador.  Ou no máximo um pato metido a ganso. Mas tenho muita responsabilidade, amo demais os meus filhos e pago minhas obrigações nos prazos.

Falei que fiquei à vontade e, então, falei à beça. Não precisa me dizer que me leu. É mais seguro.

Vamos em frente. Ad sumus.